Mais um pôr-do-sol
Após alguns minutos de gritos de agonia na noite anterior, Raquel finalmente desistira da misericórdia de Ricardo. O pôr-do-sol não havia sido tão belo como ele prometera. Mas agora, amanhecera e ela ainda não havia morrido. Tendo como futuro breve e certo a morte, ainda teria de esperar mais alguns minutos, horas, dias... Morreria de fome? De frio? De solidão? Restava a ela esperar para saber.
Já completamente sem esperança, recostara-se numa das paredes frias daquele sepulcro e ficava a observar a tênue luz que invadia o ambiente. Não tinha ânimo sequer para odiar seu quase assassino.
A morte não chegava.
Surpreendentemente, começava a ouvir algumas vozes. Então pensa em voz audível:
–Só existem três possibilidades: ou estou chegando no inferno, ou estou chegando no céu ou alguém veio visitar o fim do mundo.
Ansiosa, aguardou alguns segundos para ver se o cenário se modificaria. A mesma escuridão com uma suave linha luminosa entrando pela frincha da porta.
Mas as vozes pareciam continuar se aproximando. A esperança começava a incomodá-la. “Será que estou cansada a ponto de ter alucinações? Mas não foi só uma noite? Ou será que já estou perdendo a noção do tempo?”
As vozes continuavam se aproximando. Eram numerosas. Aos poucos Raquel começava a distinguir algumas palavras. Falava-se em projeto, aterro, revitalização.
“Alguém deve ter mesmo vindo visitar o fim do mundo. Revitalizar isso aqui? É possível?”
-Ahhh! Socorro!- interrompeu seus pensamentos com os gritos mais altos que pôde dar.
Não houve resposta. Mais uma tentativa:
-Socorro! Socorro!
De repente, silêncio. As vozes subitamente desapareceram. Mas Raquel ainda ouvia passos. Do lado de fora, estudantes se aproximavam do sepulcro falante na tentativa de entender a situação. O silêncio afligia Raquel.
-Socorro!- tentou novamente. Aquela era sua única chance de sair das profundezas da terra e voltar ao mundo dos vivos.
Dessa vez houve resposta:
-Tem alguém aí?- a voz parecia um tanto incrédula.
-Por favor, me salvem!- falava já pensando em como contaria sua história.
-A senhora está bem?
-Estaria bem melhor aí fora! Por favor, me tirem daqui!
-Fique calma! Nós vamos ajudá-la.
Alguns estudantes pareciam não entender a situação. Como uma mulher fora parar dentro de um sepulcro naquele cemitério abandonado?
Dentro de alguns instantes, Raquel emergia das profundezas da terra de volta ao mundo dos vivos. Os estudantes puseram em prática seus conhecimentos de engenharia para arrombar a porta e a portinhola da capelinha e salvar a moça.
Raquel engendrou a história mais fabulosa possível para contar como fora parar ali. Descreveu com detalhes um seqüestro inimaginável, e então foi lavada pra casa, onde repetiu a fabulosa narrativa para o seu marido.
Enfim salva.
Agora tinha ânimo suficiente para odiar Ricardo. Seu sangue fervilhava de ódio. Teve de esperá-lo esfriar para planejar a vingança. Seria uma vingança fria e calculada.
“O mais difícil vai ser convencê-lo a se encontrar comigo. Certamente não esperava que eu ressurgisse das profundezas. Com certeza não vai querer se encontrar comigo.” Seus pensamentos a atordoavam. Como se vingaria? Teria de dar-lhe uma lição. Definitiva. “Que amor doente é esse que planejou friamente a minha morte?”
A vingança dominou sua mente nos dias que se seguiram. Finalmente o plano estava pronto. Conseguira marcar um encontro com Ricardo no único bar em que ele podia pagar fiado. Surpreendentemente, não houve dificuldade em marcar o encontro. Ricardo aceitou sem problemas. “Esse cara só pode ser maluco. Maluco maldito!” Raquel maldizia Ricardo enquanto caminhava pelas ruas do subúrbio em que o rapaz morava. Ela levava consigo uma das armas da coleção de seu marido. Era uma pistola inglesa do século XIX, calibre 19, cadência de dois tiros por minuto e alcance médio de 15 metros. Para ela seria o suficiente.
Raquel não estava com medo de andar por aquele bairro esquisito. Após o episódio do cemitério havia perdido completamente o medo da morte. Os rubros raios do sol poente faziam-na lembra do cemitério. O ódio dava-lhe a certeza de que estava fazendo a coisa certa.
Enfim achou o dito bar. Dentro dele, Ricardo a esperava sentado à mesa. A moça aproximou-se lentamente e sentou-se junto a ele.
-O que você vai querer para beber?-Ricardo perguntou educadamente.
O silêncio da moça indicava seu ódio. Queimava Ricardo com seu olhar. Com um movimento calmo colocou a mão dentro da bolsa, de onde tirou a arma e um bilhete. O rapaz deu um pulo para trás elevando as mãos à cabeça e implorando misericórdia.
-Por favor, Raquel, não faça isso! Não me mate, eu imploro! Pelo nosso amor!
-Nunca te amei- foi a resposta.
Raquel lançou mais um olhar ardente sobre Ricardo e então pronto.
Pow! Um tiro seco no bar suburbano assustou a todos, especialmente a Ricardo.
No bilhete o recado:
“Meu ódio por você é grande o bastante para eu matar a pessoa que você mais ama. Mesmo que a amada seja eu.”
Os mornos raios do último pôr-do-sol banhavam o sangue frio que jorrava da cabeça de Raquel. E Ricardo chorava.

